Caerdes

A linguagem que está no rótulo do agrotóxico é inacessível para o agricultor

O Brasil utiliza cerca de 1 milhão de toneladas de agroquímicos por safra. Ou agrotóxicos, como são chamados popularmente. E tem recebido severas críticas de setores da sociedade, como ONGs ambientalistas. Mas, segundo especialistas, o consumo é compatível com a área plantada, embora falte orientação sobre o seu uso. Um dos programas que visa sanar essa lacuna, o Aplique Bem, está completando dez anos. Com o apoio da americana Arysta LifeScience, e desenvolvido pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), o programa já treinou 55 mil produtores. Sua missão? Fazer com que a tecnologia de aplicação seja bem sucedida, levando segurança ao trabalhador e produtividade à lavoura. O coordenador e pesquisador Hamilton Humberto Ramos, do centro de engenharia e automação do IAC, concedeu a seguinte entrevista:

É possível melhorar a reputação do Brasil, como maior consumidor de agroquímicos do mundo?
Sim, com investimento em treinamento. Porque a origem da maioria dos problemas está no desconhecimento de tecnologias e dos equipamentos de campo.

Mesmo assim o País continua como maior usuário de produtos que podem ser nocivos à saúde?
Há um lado que é verdade nessa informação, mas também tem o outro lado da questão. Quando a conta do uso de agroquímos é de toneladas por hectare de lavoura o Brasil não é o maior usuário. Nesse ranking, o País está em sétimo lugar. O maior usuário de agroquímico por hectare é o Japão. Até os Estados Unidos, onde o inverno rigoroso mata as pragas das lavouras, utiliza mais agroquímos por hectare.

Mas 5,2 quilos de agroquímico por habitante-ano, que é uma conta difundida no mercado, mesm assim não é demais?
Essa conta é simplesmente o volume de agroquímicos dividido pelo número de habitantes. Mas, até 80% deles são usados em culturas de exportacão, como soja, milho e algodão. Juntando citrus, café e cana-de-açúcar são 95%. A maior parte dos grandes produtores possui certificados internacionais de qualidade. Não há erros nessas lavouras. Agora, há 5% de uso que, quando estratificado, aparecem as distorções.

Por que?
Segundo os dados do IBGE, áreas com mais de mil hectares representam menos de 1% do número de propriedades no Brasil, só que elas são 50% da área plantada. Então, há um baixo número de pessoas envolvidas na aplicação, mas como elas trabalham o dia inteiro só nisso acabam tratando uma área muito grande. Isso é economicamente importante. No outro extremo, propriedades com menos de 10 hectares, representam menos de 3% da área plantada no País, só que elas são 50% das propriedades. Daí o impacto social.

Como estão as pesquisas sobre segurança de aplicação no Brasil, em relação a outros países, ?
De modo geral, o Brasil melhorou muito a qualidade das vestimentas para os aplicadores de agroquímicos. O IAC é referência em pesquisa. Além disso, desde 2012 o projeto se internacionalizou, indo para a Colômbia e o México, nas Américas, e Burkina Faso, Costa do Marfim, Gana e Mali, na África. Neste ano, o programa Aplique Bem vai para a Ásia, para orientar produtores do Vietnã. Também estamos ajudando países da Europa, como a França e a Espanha.

 

“A origem da maioria dos problemas está no desconhecimento”

 

Qual a principal dificuldade na formação de um profissional para trabalhar no campo?
A baixa educação formal. No Estado de São Paulo, cerca de 70% dos trabalhadores em atividades ligadas à aplicação têm até quatro anos de escolaridade. Por conta desse perfil, não adianta publicar cartilhas, por exemplo, porque não há o hábito de ler. A parte teórica precisa ser baseada em fotos e a prática é fundamental. No Aplique Bem atendemos quase sete mil pessoas por ano, em 350 atividades limitadas a 20 vagas por vez.

Qual é o nível de conhecimento sobre as técnicas de aplicação das pessoas que procuram o projeto?
Muito baixo. A maioria dos produtores rurais está mais preocupada com o produto do que com o método de aplicação. Existe um número muito grande de pulverizadores que são reprovados nos testes aplicados por nós. Se o agricultor joga um quilo de produto por hectare, ele precisa de um sistema que garanta uniformidade de aplicação e que seja seguro.

Como a falta de educação formal prejudica o trabalho no campo?
Hoje, na maior parte das vezes a linguagem que está no rótulo do agrotóxico é inacessível para o agricultor que vai manipular um produto. O equipamento de segurança está sinalizado todo em pictogramas, mas ninguém explicou para esse profissional como entender aquelas imagens. Em algumas delas, os erros de interpretação superam 80%.

Como é possível melhorar a formação do profissional desse setor?
Acredito que aplicador de agrotóxico deva se tornar uma profissão. Para isso, precisamos de uma parceria público-privada. Por ela, um órgão governamental decidiria quais as formações necessárias. No caso da aplicação motorizada, como seria a habilitação para o transporte e quais as especificidades da carga transportada. O treinamento seria com a iniciativa privada, no caso as auto-escolas.

Além da formação dos aplicadores, há outras ações sendo desenvolvidas pelo programa?
Uma dos nossos objetivos hoje é criar métodos para melhorar os adjuvantes. Isso vai contribuir para muito com os processos de aplicação. Os adjuvantes são produtos colocados na água, junto com os agrotóxicos, para melhorar alguma das características da aplicação. Pode servir, por exemplo, para espalhar melhor o produto na folha de uma planta.

Por Leonardo Fuhrmann

Via Dinheiro Rural

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